Ponto de Vista

Mais uma vez, o homem “demonstra sua superioridade” perante os demais seres vivos. Começo a crer que, no contexto, a profundidade da palavra “animal” se refere não aos animais, mas sim tão somente a nós, “seres humanos pensantes e racionais”. Nos julgamos tão superiores, editamos leis, estabelecemos regras e tomamos conta do mundo nos autodenominando raça superior. E desta forma, agimos como se fôssemos juízes e carrascos, executando as demais espécies de acordo com o que achamos correto.

Há quem defenda o sacrifício de cães agressores, como recentemente ocorreu com o cão da raça pit bull, que matou uma garotinha e foi “sacrificado” pela Seção de Controle de Zoonoses da cidade. Indignada, me pergunto o porquê. Que culpa tem o cão? Seu proprietário não foi cuidadoso em sua guarda, deixou-o escapar, ou foi negligente, deixando-o solto nas ruas, deve o dono ser punido civil e criminalmente. Mas e o animal?? O animal não tem poder de discernimento entre o certo e o errado. Não mata por matar. Ataca porque se sentiu acuado ou assustado, não porque premeditou aquilo, ou por ter instinto assassino.

Traçando um comparativo, imaginemos duas situações hipotéticas: um ser humano, com problemas mentais, cuja guarda é confiada a um familiar ou a um curador especial, e um assassino frio e cruel.

Supondo que essas duas pessoas, um dia, venham a matar uma outra pessoa. O doente mental será declarado absolutamente incapaz, e será encaminhado para tratamento psiquiátrico. O assassino, por sua vez, será condenado pelas leis criadas pelo homem e lhe será imputada uma pena restritiva de liberdade. Mesmo condenado, lhe serão garantidos direitos previstos em lei, e poderá ainda ter sua pena diminuída, em caso de bom comportamento, sem contar as várias alternativas jurídicas que existem, visando minorar-lhe a punição.

Em ambos os casos, o humano tem uma chance de recomeçar. De alguma forma, é “perdoado”. Sua pena se limita à restrição da liberdade durante um determinado período, ou, no caso de doença que impeça o discernimento do certo e errado, a punição é substituída por tratamento médico.

Por que com os animais é diferente?

Se o dono do cão que matou a garotinha já irá pagar pelo erro de não ter mantido o animal corretamente preso, ou se falhou deixando-o solto, não vejo lógica em mandar matar o cão. Pois uma pessoa que mata alguém não é sacrificada apenas porque cometeu um crime, mesmo sendo julgada perigosa ou tendo algum desvio mental.

Já o humano não é punido ao matar um animal. O CCZ sacrifica milhares, apenas porque estão nas ruas, ou foram abandonados. É crime dormir na rua? Se assim for, os mendigos também deveriam ser sacrificados. A justificativa de que os animais de rua podem transmitir doenças não é suficiente, pois seres humanos também podem transmiti-las.

Sinto-me envergonhada de fazer parte da ignorante raça humana. Envergonha-me saber que tem quem defenda a postura de sacrificar os animais, mesmo sabendo que são seres irracionais. Creio que o contato mais próximo que essas pessoas, defensoras dessa atitude abominável, tiveram com cão Pit Bull, Rottweiler ou qualquer raça dita agressiva foi através de um jornal ou tv. Não tem amor pelos animais, não tem respeito para com os seres vivos. Fácil criticar e julgar sem conhecer. Lamentável!

Somente estaremos fazendo justiça julgando o proprietário do mesmo, que particularmente, acredito também estar sofrendo muito com o ocorrido.

Para finalizar, além de criadora e defensora dos animais, também sou mãe. Imagino a dor de perder um filho de forma trágica. Porém não podemos perder a razão, achar que estamos fazendo justiça matando o cão ou exterminando esta ou aquela raça, já que existem dúzias de raças de cães passíveis de causar um potencial dano. E um cão somente se torna perigoso na mão de um proprietário irresponsável.

Dra. Vanessa Andrade Alves
Advogada, cinófila, criadora de APBTs e proprietária do HAPK Kennels